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Se tenho sorte? Tenho muita sorte...

Todas as vezes que ponho umas fotografias catitas na praia ou do nascer do sol, ainda recebo assim umas mensagens sarcásticas, e não me estou a referir aos amigos que me “insultam” em público, a esses eu agradeço, pois é sinal que ainda gostam de mim! Refiro-me aos outros, que o fazem em privado e me dizem a roerem-se de inveja:
“à que sorte!”
“tu é que estás bem!”
“que rica vida e tal...”

Acham mesmo que tenho uma rica vida? Então agora vamos lá ver isto de outra maneira...

Deixei o meu país,  a profissão (e um emprego seguro) que escolhi e a carreira que construi por mérito próprio (só foram 16 anos), deixei a minha casa, que comprei com empréstimo ao banco (e que continuo a pagar) e que me esfalfei para decorar, deixei os amigos (e quem me conhece sabe que são o meu bem mais precioso), deixei família (alguns deles fazem parte dos meus melhores amigos), deixei a cidade que me viu crescer, os sítios que adorava ir, as cores, as caras familiares e os hábitos que me faziam feliz...por amor à família, aos meus filhos e ao meu marido!

Se me arrependo? Não, nem por um minuto! Se me queixo? Não, a escolha foi minha e voltava a fazê-lo! Foi fácil? Não!

Tinha 39 anos, 2 filhos, uma vida organizada (segundo os meus pardões e nunca tive reclamações por escrito), e de repente tudo se desorganizou... foi preciso aprender a viver num país que não conhecia, com hábitos de vida muito diferentes e com pessoas que nunca tinha visto... fizeram-me muita falta os amigos (o mimo, as longas conversas, as confidências e os abraços), os almoços barulhentos e divertidos com os colegas de trabalho, os jantares de última da hora, os fins de semana com a casa cheia..., faltaram-me as caras conhecidas das rotinas diárias, o café no sítio do costume, o pastel de nata... fez-me falta tudo o que fazia sentido na organização da minha vida.

Há sempre aquela ideia de que o emigrante vive uma vida desafogada e que fica rico em três tempos... quanto aos outros emigrantes não sei, mas no nosso caso, embora seja verdade que estamos melhor do que estávamos, contiuamos a ter contas para pagar, e agora são duas casas em vez de uma, um colégio em vez da escola pública, cuidados de saúde e medicamentos que custam o dobro de Portugal, e a alimentação não é propriamente barata, por isso, como disse em tempos um engenheiro agora muito importante (e os meus parabéns a ele) "é só fazer as contas".

Serve isto tudo para vos dizer, que sim, que até têm razão, tenho uma vida rica, estamos todos juntos, os miúdos adoram o colégio, já fizeram amigos e eu também (mas continuo a ter muitas saudades dos que estão longe, são insubstituíveis), a praia fica ao virar da esquina (isto é uma ilha), o bom tempo prolonga-se pelo Outono adentro e a malta pode “praiar” até Novembro (com sorte), levanto-me com as galinhas (às 6.20 já estou a fazer pequenos-almoços), o que me dá tempo para fazer tudo e mais alguma coisa (o que ajuda não ter de ficar horas a fio numa fila de trânsito), até tirar fotografias ao nascer do sol e meter nojo ao pessoal...

Mas meus queridos, não é uma rica vida (no verdadeiro sentido das palavras) e é preciso ter tomates para largar tudo aos 39 (going on 40) e emigrar com dois filhos às costas (vá, os sapatos, a roupa, os brinquedos e a máquina de costura também vieram) e começar tudo de novo!


Se tenho sorte? Tenho muita sorte, estamos todos juntos!  


Fotografia tirada em Julho 2013, quando estávamos em trânsito.

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