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Vidas duplas, às vezes triplas...

A nossa geração foi criada para ter vidas duplas, às vezes triplas, tipo super-super-heróis... somos incentivados a estudar, a ter uma carreira profissional, depois a fazer mestrados e doutoramentos, e no meio disto tudo ainda há os que se aventuram a ter filhos, não se podendo esquecer as lides da casa, as idas ao ginásio, a vida social, etc...

Aos 39 anos eu também tinha uma carreira, mestrado feito, primeiro ano do doutoramento concluído, já era mãe de dois, tinha a sorte de ter uma Candida Aurélia para dar uma ajuda com as lides da casa, umas avós maravilhosas que me tomavam conta dos filhos quando o trabalho se prolongava, ia ao ginásio à hora do almoço e ainda arranjava tempo para sair com os amigos, era o máximo! Aos 39 anos eu tinha uma vida dupla, às vezes tripla, e vivia da adrelina de achar que também era uma super-heroína, que usava diferentes capas e que punha e tirava os óculos, sem na realidade ver bem o que estava a perder...

Hoje, aos 40 (e três), tenho um trabalho que gosto muito, mas não se vislumbra nenhuma carreira brilhante, estou a borrifar-me para os estudos académicos (e ficam já a saber que o dinheiro do doutoramento vai todo para viagens); não vou ao ginásio (mas faço Yoga); as avós continuam a ser maravilhosas, mas já não precisam de tomar conta dos netos fora de horas (só para a mãe e o pai namorarem); arrumei as capas na gaveta, mas continuo a usar óculos (a idade não perdoa); e se me perguntarem se sou feliz ou me arrependo de ter largado tudo? Sim sou feliz e não me arrependo, mesmo! Fi-lo de forma consciente e por amor (um cliché, eu sei, mas é verdade que foi por amor aos meus filhos e ao meu marido)! Se foi fácil, NÃO, de todo... o caminho para chegar aqui foi tortuoso, caí muitas vezes, chorei outras tantas, fiz muitas perguntas, tive muitas dúvidas...mas cheguei inteira e com a certeza de que é aqui mesmo que quero estar!

Não quero com isto julgar ninguém, admiro todas as mulheres que têm força e conseguem ser estas super-heroínas, e tenho amigas que o são e tenho imenso orgulho nelas! No meu caso, a vida trocou-me as voltas e eu vi-me obrigada a encontrar (de novo) o meu lugar no mundo, mas acho precisava disto para me encontrar a mim também! Continuo a ser uma super-mulher, mas deixei de tentar ser uma super-heroína (é muito cansativo)! 


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